Nos últimos anos, aprender virou uma pílula fácil de engolir. Os cursos online prometem liberdade, tempo, autonomia e, muitas vezes, dinheiro. Mas, quando a gente olha de perto, percebe que essa lógica funciona muito bem para quem vende e para uma pequena parte das pessoas que já têm estrutura, tempo ou dinheiro pra colocar em prática o que aprendem.
Não dá pra dizer que aprender online não funciona. Mas dá pra dizer que o formato que mais se espalhou hoje vende mais expectativa do que aprendizado.
O conhecimento em cápsulas
A internet democratizou o acesso à informação, mas também criou um novo tipo de mercado: o da economia da promessa. O conhecimento virou produto e o ensino, uma vitrine de resultados embalados em rótulos de “fórmula”, “método” e “segredo”.
De acordo com a Grand View Research, o mercado de educação digital deve ultrapassar 130 bilhões de dólares até 2030. No Brasil, 79% das pessoas consumiram produtos digitais em 2023, segundo o Jornal GGN.
Os números mostram o tamanho do mercado, mas também deixam claro o desequilíbrio: o que mais cresce não é o aprendizado, é a venda.
Quem já tem visibilidade, verba pra investir em tráfego e uma equipe por trás, tende a prosperar. Mas quem tem conhecimento e pouco recurso, geralmente fica pelo caminho.
O modelo foi feito pra escalar, não pra acompanhar.
Quando o marketing é mais forte que o método
O pesquisador Josh Kaufman fala sobre a “síndrome do autodidata culpado”: quando o aluno se sente fracassado por não aprender sozinho num modelo que foi feito pra deixá-lo só. E é exatamente o que acontece em muitos cursos online.
O discurso é bonito “você vai mudar de vida” mas, na prática, o que se entrega é um pacote de vídeos e PDFs. Pouco acompanhamento, quase nenhum espaço pra troca.
E, quando o aluno não consegue aplicar, a culpa volta pra ele: “você não teve disciplina”, “você não aplicou o método”, “você não quis de verdade”.
A educadora Priscila Gonsales, do Instituto Educadigital, fala bastante sobre isso. Ela explica que muitos cursos online são criados pra vender, não pra ensinar. Falta base pedagógica, progressão, contextualização e feedback.
Como dizia Ken Robinson, “ensinar não é transmitir, é criar as condições para o aprendizado”. E é exatamente isso que falta nesse formato acelerado de ensino.
O sucesso existe — mas é exceção
Estudos mostram que menos de 10% dos alunos concluem cursos online (Harvard Business Review, 2023). E, entre os que conseguem aplicar o que aprendem, a maioria já tinha experiência ou estrutura anterior.
Quem não tem recurso financeiro, tempo livre ou um ambiente que incentive o estudo, geralmente desanima no meio do caminho. Não por falta de vontade, mas porque o curso não foi pensado pra essa realidade.
E mesmo assim, o discurso continua sendo o mesmo: “se não deu certo, é porque você não se esforçou o suficiente.”
Essa lógica é perigosa, porque transforma falha de estrutura em culpa pessoal. E faz muita gente desistir antes mesmo de começar.
A culpa é do aluno ou do modelo?
Quando a maioria não aprende, o problema não é falta de esforço. É falha de projeto.
A verdade é que o modelo da educação digital que mais cresce hoje foi feito pra vender em escala. Ele não prioriza o acompanhamento, nem o aprendizado. Vende sonhos, não processos.
E quando o resultado não vem, quem se sente fracassado é o aluno, não o sistema.
O educador Seth Godin diz que o ensino digital só funciona quando há comunidade, prática e propósito compartilhado. E são justamente essas três coisas que o formato de massa não consegue oferecer.
Nem todo curso é problema
Existem exceções. Cursos e mentorias que são feitos com cuidado, com método e com presença. Gente que realmente quer ensinar, e não só vender. Mas esses casos ainda são minoria. O que domina o mercado é a promessa e não o processo.
Enquanto o ensino continuar sendo tratado como produto de prateleira, a economia da promessa vai seguir crescendo e o aprendizado real vai ficando pra trás.
Na Pitibiribá, o conhecimento é ferramenta, não cápsula
Na Pitibiribá, acreditamos que o conhecimento é ferramenta, não cápsula. Que ensinar, assim como criar, é construir caminhos , não vender atalhos.
E que todo aprendizado verdadeiro exige tempo, escuta e presença.
A gente trabalha com marcas, projetos e pessoas que acreditam nisso também. Porque o que transforma não é o curso, a fórmula ou o vídeo. É o processo, o cuidado e a intenção por trás de cada escolha.
Aqui, o aprendizado não é promessa. É prática. É troca. É o que nos move.




